Richarlison, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz disputam Ilha Comprida em Angra

0
1
Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), cercada por Mata Atlântica
Reprodução/Redes Sociais

A disputa pela Ilha Comprida, em Angra dos Reis, voltou ao centro da briga entre Richarlison, Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz na quarta-feira, 21, depois que o atacante publicou um vídeo para repetir as acusações sobre a posse do imóvel e mostrar documentos que, segundo ele, provam a compra da área.

A Ilha Comprida tem cerca de 4,5 quilômetros de extensão e é cercada pela vegetação da Mata Atlântica. A ligação com o continente passa pelos manguezais do Bracuí. No território há pequenas praias acessíveis com a maré baixa e uma cachoeira privada mencionada e registrada pelo jogador nas redes sociais.

As ilhas de Angra dos Reis são destinos de luxo para turistas nacionais e internacionais. A paisagem reúne beleza natural, mar calmo e Mata Atlântica, combinação que atrai visitantes à região.

O que Richarlison diz ter comprado

No vídeo publicado em sua rede social, Richarlison de Andrade, atacante do Tottenham, afirmou que investiu R$ 10 milhões na compra da mansão por meio de uma empresa da qual é sócio. Ele disse que Flávio Bolsonaro demonstrou interesse no imóvel, mas que recusou vender. Também acusou o senador de ter se aliado a Willer Tomaz para tirar dele os direitos sobre a área.

O jogador respondeu a um desafio feito pelo advogado, que havia cobrado documentos que comprovassem seus direitos sobre o imóvel. “Estarei mostrando aqui agora os documentos que comprovam que eu comprei a ilha. Foi tudo na frente do juiz, foi tudo na frente do desembargador do Rio de Janeiro e foi tudo correto”, afirmou o atacante.

Entre os papéis exibidos por Richarlison estão contratos de cessão de direitos possessórios e comprovantes de pagamentos feitos a antigos ocupantes. Segundo ele, R$ 4,66 milhões dos cerca de R$ 10 milhões investidos foram pagos a antigos ocupantes; o restante inclui reformas e segurança. O jogador também mostrou números de processos administrativos da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e disse que um pedido de regularização apresentado em setembro de 2021 ficou sem conclusão por cerca de dez meses, enquanto uma solicitação ligada ao grupo de Tomaz teria sido concluída em um único dia, em julho de 2022.

O início da briga e a versão dos envolvidos

A disputa começou em 2020, quando Richarlison, seu então empresário Renato Velasco e o político mineiro Alencar da Silveira Júnior negociaram a aquisição dos direitos de ocupação do imóvel em Angra dos Reis. Segundo reportagem publicada pelo portal Metrópoles em 2022, Flávio Bolsonaro visitou a mansão em julho de 2020, a convite do ex-senador Wilder Morais. Na época, o imóvel era ocupado pelo empresário Antônio Marcos Pereira Silva, que negociava a transferência dos direitos possessórios para o grupo ligado ao jogador.

Em janeiro de 2021, Flávio teria voltado à região com Willer Tomaz. Em entrevista ao portal, Antônio Marcos afirmou que o advogado demonstrou interesse no imóvel e perguntou se seria possível desfazer a negociação ou convencer os novos compradores a vendê-lo. Tomaz apresentou outra versão e disse que já conhecia a propriedade antes desses episódios.

Em um vídeo publicado no Instagram em 17 de outubro, Richarlison afirmou que Flávio Bolsonaro estava entre os interessados em comprar o imóvel, mas que ele recusou a proposta. O atacante acusou o senador e Willer Tomaz de terem obtido os direitos de ocupação da área na Justiça depois da negativa. “Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, declarou. Segundo ele, a regularização da documentação poderia levar meses ou até anos, mas Flávio e o advogado teriam conseguido assumir a posse em apenas 24 horas. O jogador disse ainda que investiu cerca de R$ 10 milhões no imóvel e não recebeu qualquer valor pela perda dos direitos que reivindica.

Flávio Bolsonaro nega envolvimento na disputa. Em 2022, já havia dito que não era parte no processo e que tinha sido indicado apenas como testemunha. 

O conflito chegou à Justiça em 2022. A M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda. entrou com uma ação de reintegração de posse contra a Sport 70, ligada a Richarlison, a YTA Consultoria e Renato Rocha Velasco. A empresa alegava ter direitos sobre a área; o grupo do jogador defendia a validade da negociação feita com os antigos ocupantes.

Maria Alice Menna, representante da M Locadora e então com 78 anos, contestou documentos usados na negociação do imóvel. Ela afirmou ter sido induzida a assinar papéis e alegou que sua assinatura havia sido falsificada. Na legenda do vídeo desta quarta-feira (21), Richarlison acusou o grupo ligado ao advogado Willer Tomaz de ter “ludibriado uma viúva de 78 anos para tomar a nossa ilha”.

O g1 teve acesso a uma das ações que tramitaram na Justiça do Rio de Janeiro. Em 2022, o processo teve liminares concedidas em maio e julho e também mandados expedidos. Em maio de 2023, o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior extinguiu a ação principal sem analisar o mérito porque houve divergência entre os próprios representantes da M Locadora: um sócio dizia que a empresa mantinha a posse do imóvel; outro sustentava que ela não ocupava a propriedade desde 1990. O magistrado encerrou essa ação principal, mas deixou seguir a análise de um pedido apresentado pela Sport 70 e por Renato Rocha Velasco contra a M Locadora. A sentença não definiu quem tinha direito à posse nem reconheceu fraude processual.

Depois disso, houve novos desdobramentos: em junho de 2025, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo em outubro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve um entendimento favorável à empresa ligada a Willer Tomaz; em outubro de 2025, o histórico consultado pelo g1 registrou homologação de renúncia apresentada pelo autor; e o processo foi arquivado definitivamente em 23 de janeiro de 2026.

Richarlison também cobra investigação sobre os envolvidos na disputa pelos direitos de ocupação da área. Segundo a Folha de S.Paulo, o coletivo Derrubando Muros apresentou representação ao Ministério Público Federal (MPF) para pedir apuração sobre possíveis irregularidades na regularização do terreno, que pertence à União. O atacante diz que vai continuar na Justiça para tentar recuperar o imóvel ou os valores investidos e já prometeu destinar parte de eventual indenização ao hospital de Nova Venécia, no Espírito Santo, sua cidade natal.

No vídeo publicado nesta quarta-feira (21), ele contou ainda que procurou Flávio Bolsonaro no início do ano para tentar resolver o impasse, mas não recebeu resposta. “Eu estou aqui lutando pelo que é meu, que é direito meu, e vou lutar até o final”, declarou.

Procurado pela reportagem, Flávio Bolsonaro não comentou as declarações mais recentes.

(*) Com informações do site G1